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Data da publicação: 02/12/2016

Esta entrevista foi originalmente publicada na revista ICMCotidi@no nº 102, edição de julho, agosto e setembro de 2013

 

“Sou fanático por estar aqui, é muito agradável. Vamos aproveitar para subir no prédio da biblioteca e ver aquele Ipê amarelo antes que as flores caíam...”

 

Ele se dedica a ensinar quem ensina. Mesmo quando se aposentou, em 2010, não abandonou a sala de aula e continua até hoje ministrando uma disciplina no Mestrado Profissional em Matemática em Rede Nacional (PROFMAT), destinado a professores do ensino médio. Nesta entrevista, Luiz Augusto Ladeira revela a fórmula mágica para manter vivo esse entusiasmo pela arte de ensinar: “Procuro o brilho nos olhos dos alunos, daqueles que têm vontade de aprender”.

As lições desse professor do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos, vão muito além das fórmulas matemáticas. Sua trajetória mistura-se com a história do Instituto, onde ingressou para cursar mestrado em 1973. A escolha pela carreira aconteceu quando ainda estava Ensino Médio. Foi aí que se encantou pela matemática, ao encontrar professores que tinham “um certo brilho nos olhos”. Um brilho que, hoje, Ladeira procura encontrar nos olhos de seus alunos, também professores.

Para alguém que sempre foi tímido como ele, enfrentar uma sala de aula repleta de alunos sem se amedrontar é uma experiência repleta de significado. Lembra-se da primeira vez que sentiu essa emoção. Estava no terceiro andar do prédio da Escola de Engenharia de São Carlos (EESC) para ministrar a disciplina Cálculo I a estudantes dos cursos de Engenharia Civil, Mecânica e Elétrica. “Eu saí de lá nas nuvens. Falei: eu consigo! Como diz o Obama: sim, nós podemos”, brinca Ladeira.

Na entrevista a seguir, ele compartilha experiências como essa em meio a muitas outras lições de vida.

 

O que o levou a cursar Licenciatura em Matemática na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Rio Claro, que atualmente é uma unidade da UNESP?

Ser professor de matemática era um negócio que me atraía porque eu tinha uma admiração por alguns professores do Fundamental e do Ensino Médio. Lembro-me de uma professora de matemática do Fundamental, Dona Helena. Ela não era formada em matemática, aprendeu por gosto e aí prestou um exame, antigamente havia uma espécie de exame de suficiência que habilitava as pessoas a darem aulas. Aliás, duas professoras que eu tive nessas condições se tornaram modelos para mim. A outra foi uma professora do Científico que dava aula de desenho geométrico. Ela se formou como professora primária e pegou algumas apostilas de desenho. Ela dava aula com gosto matemático, não era aquela aula burocrática. E quando a gente vê um professor com brilho nos olhos, a gente se encanta pela matéria. Teve ainda a professora Améris, no Científico, que era formada em matemática em Rio Claro.

 

Quando começa sua trajetória no ICMC?

Entrei no ICMC em 1973 para o Mestrado em Matemática. Em 1974, comecei a trabalhar como Auxiliar de Ensino, uma posição que não existe mais na USP: naquele ano foram contratados também o Dide (Oziride Manzoli Neto), a Neide (Bertoldi), já aposentada, o João Sahão e a Maria Alice Bozola, que se transferiu para a Unicamp. Naquela época, era difícil trazer doutores para cá: quem tinha o doutorado geralmente preferia ficar perto das cidades do Rio de Janeiro e São Paulo, que eram centros já consolidados em matemática. Em uma conversa, o professor Odelar Leite Linhares, que foi diretor aqui de 1982 a 1986, comentou que era difícil atrair professores estrangeiros: também preferiam o Rio. Por isso, a política do departamento foi contratar auxiliares de ensino. Na medida do possível, esse pessoal depois era enviado para o exterior para obter o doutorado: o Oziride foi o primeiro a seguir essa linha.

 

Como essa história começou a mudar e o ICMC se tornou o que é hoje?

A própria criação da EESC aconteceu por causa da carência de escolas no interior do Estado. São Carlos é, digamos, uma região estratégica, quase no centro de São Paulo. Então, passamos a atrair muitos alunos e aí começou essa expansão com a criação de novos cursos de engenharia e, dois anos antes de eu chegar aqui, já havia um clima para criar o ICMC. Nesse tempo, a pós-graduação também era pouco desenvolvida no País e como o ICMC passou a oferecer mestrado e doutorado, todo esse pessoal do norte do Estado e do sul de Minas veio para cá. Passamos a atender muita gente e houve uma época em que cerca de 50% dos professores de matemática das universidades passavam aqui pelo mestrado ou pelo doutorado. Com isso veio a criação de mais cursos, o que motivou uma expansão muito grande.

 

Houve algum desafio marcante no começo da sua carreira?

No ano em que comecei a dar aula, além da disciplina Cálculo I, o meu orientador do mestrado – Antonio Fernandes Izé - tinha viajado para os EUA e me deixou uma matéria terrível para ministrar: Matemática Aplicada I. Eu não sabia direito nem matemática, nem aplicada e fui dar aula para Engenharia Elétrica, que naquele tempo não era uma turma fácil. Por ser um dos cursos mais procurados daqui, havia alunos excelentes. Um deles foi o professor José Carlos Maldonado (atualmente, diretor do ICMC); posteriormente, o Alexandre Nolasco de Carvalho (atualmente, vice diretor do ICMC), o Francisco José Monaco, o Alexandre Delbem. Também cursavam essa disciplina os alunos do curso de Matemática, entre eles a professora aposentada Sandra Maria Semensato de Godoy.

 

Como os alunos o recebiam? Era boa essa sensação de dar aulas na USP?

Eu estava dando aula em uma das melhores escolas do país, o que me enchia de orgulho. Eu fazia tudo o que era possível para melhorar. É claro que eu passei uns tempos aí criando má impressão em alguns alunos porque eu sempre fui bravo em sala de aula com quem não se comportava. Mas teve um dia em que eu fiquei feliz da vida: estava conversando com uma aluna e ela me contou que havia encontrado um ex-aluno meu que foi também professor dela. Ele perguntou quem dava aula de Cálculo. A aluna respondeu que era o Ladeira e meu ex-aluno disse: ele é um paizão! Eu pensei: nossa, não sou tão mau assim! Mas eu não consigo me livrar disso: eu acho que quem está em sala de aula tem que aproveitar ao máximo o fato de estar lá.

 

Qual a relevância das experiências que você teve no exterior?

De 1989 a 1991, fiz pós-doutorado em Atlanta, nos Estados Unidos, no Instituto de Tecnologia da Geórgia. Depois, retornei aos Estados Unidos em 1996 e passei um período em Claremont, um pequeno paraíso na Califórnia. Essa experiência no exterior é muito importante para a gente ganhar independência, ver um ambiente novo, enxergar uma nova maneira de dirigir uma universidade no que se refere à pesquisa e entrar em contato com outras lideranças. É muito saudável. Eu sempre estimulo as pessoas a fazerem isso. Agora temos algo melhor ainda, nossos alunos de graduação podem ir ao exterior. Eu fico muito feliz porque é uma oportunidade de ter um contato cultural com outras maneiras de ver o mundo. Em relação à pesquisa, eu trabalhei lá com Jack Hale, uma das pessoas mais importantes na minha área (Análise). E tive contato com muitos outros pesquisadores. Foi depois disso que orientei a Sueli Mieko Tanaka Aki no doutorado, atualmente professora do ICMC. Até então eu não me sentia muito confiante para isso, depois me senti capaz. Mas ela era mais do que autossuficiente. Eu costumo dizer que a Sueli fez um doutorado apesar do orientador.

 

Quais foram os momentos mais marcantes da sua trajetória aqui no ICMC?

No âmbito administrativo, foi quando fui coordenador da pós-graduação, de 1994 a 1995, e quando fui chefe do Departamento de Matemática, de 2003 a 2005. Não que eu considere que tenha feito um trabalho ótimo, mas eu aprendi muito com o contato com praticamente todas as pessoas do departamento. Quando somos um membro do departamento, nosso contato se restringe a poucas pessoas, mas isso muda quando estamos numa posição de chefia. Então, temos uma relação mais significativa com os colegas. Aliás, antes que eu esqueça, é bom falar uma coisa aqui: a gente tem um corpo técnico de funcionários muito bom, disposto a cooperar. • Aconteceu algo marcante assim no campo da pesquisa científica? É uma alegria sempre que um trabalho é publicado, e também ao completarmos uma orientação. Lembro-me que, quando meu segundo artigo – Differentiability With Respect To Delays – foi publicado em 1991, no Journal of Differential Equations, um jornal de grande prestígio na área, eu estava em Atlanta e dei pulos de alegria. O outro autor do artigo, Jack Hale, era editor da revista e disse que ia mandar o artigo para um árbitro bem durão para não ter marmelada. Então, quando veio a informação que ele estava aceito, eu achei uma maravilha! Tive ainda outros contatos importantes, tais como: o professor Kenneth Cooke, em Claremont, e o professor Luis Antonio Vieira de Carvalho, do ICMC, com quem fiz vários trabalhos.

 

Como continuar motivado nesse projeto de dar aulas para os alunos do PROFMAT, um programa de pós-graduação voltado aos professores do ensino médio?

Procuro o brilho nos olhos dos alunos, daqueles que têm vontade de aprender. Nesse sentido, vale lembrar uma cena do livro A insustentável leveza do ser, de Milan Kundera. Há dois personagens principais, o Tomas e a Teresa. Ele chegou a um café e se sentou em uma das mesas com um livro na mão. A Teresa era garçonete nesse local e, como estava no final do expediente, ela se sentou para conversar com ele porque era encantada por pessoas que tinham um livro. Então, começou a fazer perguntas sobre o livro. Nesse momento, Kundera escreve: Tomas viu nos olhos da Teresa o brilho que nenhum professor viu nos olhos de seus alunos. Ele enxergou essa vontade de aprender! Sempre há alunos que se encantam pela matemática. Isso me estimula mais.

 

O que dizer para quem está no início da carreira docente?

É uma frase que eu diria para qualquer pessoa em qualquer situação: mergulhe fundo no que está fazendo. Dedique-se integralmente. Se, depois de certo tempo, perceber que não gostou, estará com uma percepção muito autêntica. As oportunidades são muitas, vale a pena seguir essa carreira, é uma profissão gratificante.

 

 Ladeira diante da régua de cálculo do Museu de Computação Odelar Leite Linhares

 

Família de professor de matemática é assim

A esposa de Ladeira, Isilda, é professora do Ensino Infantil e trabalha, atualmente, em uma escola da Prefeitura de São Carlos, com crianças de 2 a 3 anos. Eles se conheceram em 1969, quando ele estava entrando na universidade e ela no Ensino Médio. Ambos nasceram em Itirapina, interior de São Paulo. O primeiro filho do casal nasceu em 1976, no mês em que Ladeira finalizou seu mestrado. É Suzane Lúcia, que herdou do pai o amor pelo ensino: é professora de português no Colégio São Carlos. Já o segundo filho nasceu em 1982, um ano depois que Ladeira finalizou o doutorado, sob a orientação do professor Plácido Táboas. Ele herdou do pai o amor pela matemática. É Luís Felipe, que se formou Bacharel em Matemática no ICMC, onde também fez mestrado e já ministrou aulas. Atualmente, trabalha numa firma de consultoria. Às terças e quartas, Ladeira dedica-se a uma outra profissão: a de avô. É quando seus dois netos, os filhos de Suzane – Maria Fernanda, 11 anos, e Luís Henrique, 6 – vêm passar a tarde na casa do avô.

 

Régua de cálculo: o que é isso?

Ladeira é um entusiasta do uso da régua de cálculo como material didático. “Esse foi um instrumento importantíssimo por 350 anos”, explicou. Criada em 1622 pelo padre inglês William Oughtred, a régua de cálculo era um objeto obrigatório no bolso de todos os engenheiros brasileiros até por volta de 1970. Ladeira agora está orientando uma aluna do PROFMAT, Tânia Pippa, no desenvolvimento de uma dissertação de mestrado que analisará o emprego dessa régua para o ensino do conceito de logaritmo em salas aula do ensino médio.

 

Texto e fotos: Denise Casatti – Assessoria de Comunicação ICMC/USP

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